INTRODUÇÃO
A transmissão e absorção de conhecimentos como objetivos do processo de ensinoaprendizagem é um questionamento constante entre educadores que tem cedido lugar para o ensinar a pensar, a comunicar-se e pesquisar, a desenvolver o raciocínio lógico, a fazer sínteses e elaborações teóricas, a ser independente e autônomo ou, em outras palavras, a ser
socialmente competente.
A partir da Conferência Internacional sobre Educação, ocorrida em 1990 na cidade de Jomtien, na Tailândia, foi elaborada a Declaração Mundial sobre a Educação para Todos. Neste documento enfatiza-se que o educador, que anteriormente exercia o papel de agente transmissor de informações, passa a exercer o papel de selecionador dessas informações, auxiliando tanto no descobrimento e seleção quanto na maneira de transformá-las em saberes distintos.
Nesse ínterim, especialistas do mundo inteiro que compunham a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI prepararam um relatório para a UNESCO intitulado “Educação: um tesouro a Descobrir”. Coordenado por Jacques Delors, neste relatório são apresentados os “Quatro Pilares da Educação”, pautados em como a escola pode contribuir para o desenvolvimento de novas gerações, preparando-as para mudar e melhorar o mundo.
Aprender a conhecer
OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO
APRENDER A CONHECER
Em meio a um contexto histórico e social de constantes incertezas e mudanças, é necessário aprender novamente, de um outro jeito, e lidar com o novo. E isso nem sempre é tarefa fácil: muitas vezes surge o ímpeto de desistir antes mesmo de tentar. Julgamos que não vale a pena gastar tempo aprendendo algo novo, algo que não sabemos ao certo se fará diferença no futuro. Mas vale! Aprender a aprender é uma habilidade importante para todas as pessoas: é a capacidade de descobrir quais movimentos são necessários para que as transformações desejadas aconteçam.
Nessa perspectiva, um dos maiores desafios das instituições de Educação Infantil é estimular o desenvolvimento de estratégias de aprendizagem capazes de estimular capacidades e habilidades que instrumentalizem a criança desde os primeiros meses de vida para aprender a conhecer (FRIEDMANN, 2011). Apesar da aparente complexidade desta tarefa, os profissionais da educação não precisam aprender a revolucionar o mundo, mas a saber aprender, o que envolve o exercício da atenção, da memória, do pensamento crítico e de uma postura de curiosidade diante dos desafios encontrados durante toda sua trajetória.
Antunes (2008) afirma que todas as crianças podem ter as diversas habilidades desenvolvidas. Para isso, é necessário que, a partir dos recursos disponíveis, sejam utilizados esquemas de aprendizagem eficientes e significativos, e que os agentes estimuladores (educadores, famílias e comunidade) estejam instrumentalizados para que as necessidades infantis individuais sejam observadas e acolhidas nos projetos de estimulação. Desse modo, o autor propõe uma “caixa de ferramentas do educador estimulador”, composta principalmente pelo que compreendemos como alguns dos alicerces do aprender a aprender:
O estudo realizado por Rodrigues e Boer (2019) discutiu como a internalização dessas ferramentas pode propiciar o cumprimento dos objetivos da BNCC na Educação Infantil. Esses autores realizaram uma pesquisa-ação com uma turma de nível Pré-A (faixa etária de 4 anos) e constataram o papel da escuta atenta como um canal aberto para a promoção do aprender.
Ao direcionar a atenção para o que as crianças sinalizavam querer conhecer no cotidiano escolar, intervindo com intencionalidade educativa a cada oportunidade de interação, o educador pode promover ações interdisciplinares que levem as crianças a explorar os diferentes campos de experiência, tornando o conhecimento algo prazeroso e significativo a longo prazo.
Nesse sentido, colocar a criança no centro do seu processo de aprendizagem, saber onde se objetiva chegar em cada intervenção e lançar mão de desafios condizentes com as capacidades infantis em cada fase de seu desenvolvimento, respeitando e acompanhando o seu processo individual, são práticas fundamentais para a promoção do desenvolvimento infantil, alinhadas às ferramentas apresentadas.
Para aguçar o olhar do educador na organização de práticas que favoreçam o pleno desenvolvimento biopsicossocial das crianças, Rodrigues e Boer (2019) apontam a importância da formação continuada na área da Educação Infantil e da atitude de constante busca por novas aprendizagens por parte do educador.
APRENDER A FAZER
Conhecer e fazer são práticas indissociáveis. Por isso, esse segundo pilar é consequência do primeiro (FRIEDMANN, 2011). Desde o início da vida, a busca por atribuir significado às experiências faz parte do desenvolvimento humano. Sendo assim, a experimentação prática dos conhecimentos por meio do corpo possibilita o processo de atribuições de significados singulares e consistentes, formando a base para as aquisições e desafios seguintes. Conforme Delors (2012), a aplicação prática do conhecimento para a resolução de problemas envolve a criatividade, a comunicação e a cooperação, tornando a pessoa apta a enfrentar numerosas situações desafiadoras nos diferentes campos de experiência.
Nesse sentido, aprender a fazer envolve a garantia de alguns dos direitos básicos previstos na BNCC, como o direito de participar e de explorar, ou seja, é fundamental envolver a criança na construção do planejamento das rotinas, das brincadeiras e das atividades, assim como possibilitar a ela a exploração autônoma e criativa dos materiais, espaços e vivências proporcionados pelo contexto educacional.
Portanto, a interação e o lúdico são os eixos centrais dessas aprendizagens, os quais devem estar integrados à rotina infantil. A fim de reforçar a importância da interação com o adulto, na discussão sobre este segundo pilar da educação, apresentamos dois paralelos, um contemplando a criança, outro o educador.
Autonomia é a capacidade da criança de expressar desejos e ter mais independência em relação aos adultos.
Complementar a isso, destacamos a relevância de se pensar em intervenções e propostas de atividades que estejam de acordo com o repertório de habilidades infantis conforme cada faixa etária. O desafio deve ser adequado para as habilidades da criança naquele momento, pois nada deve ser tão fácil que não a incentive a pensar, nem tão difícil que ela desista de tentar.
Saber dosar, saber a hora de parar, saber dizer não... Parece simples, mas não é. Em geral fazemos automaticamente aquilo a que já estamos acostumados. Nesse sentido, mudar algumas práticas pode ser desconfortável no começo, mas à medida que o tempo transcorre essas práticas vão se incorporando ao cotidiano.
APRENDER A CONVIVER
Para a BNCC este pilar compreende: “conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas”.
Sabe-se que a família é a primeira instituição na qual o indivíduo é inserido logo que nasce, estabelecendo suas primeiras relações. Em função disso, as vivências no âmbito familiar costumam ser significativas ao longo da vida. Essa família, por sua vez, faz parte de uma rede complexa de relações com os fatores sociais, ambientais, culturais e históricos do tempo/espaço em que vive (MINUCHIN, 1990).
Nesse sentido, aquilo que se pensa, as escolhas que se faz e a forma como se sente também são reflexo dessa grande rede de interconexões. Quanto maior for a consciência a respeito disso, melhor será a compreensão do outro e a percepção da interdependência entre o eu e o outro, a escola, a cidade, o país e o mundo em que se vive. Logo, a partir da compreensão da interdependência humana potencializa-se a habilidade de realizar projetos comuns e gerenciar conflitos, respeitando-se a pluralidade (FRIEDMANN, 2011; DELORS, 2012).
Assim como é tarefa da escola a compreensão sobre a interdependência das relações que se estabelecem, com o objetivo de proporcionar as condições necessárias ao aprender a viver juntos, é tarefa dela abrir espaço para o aprendizado sobre a diversidade da condição humana. Essa aprendizagem envolve (ANTUNES, 2008; BRASIL, 2018; FRIEDMANN, 2011):
A BNCC enfatiza que experiências como essas podem viabilizar o desenvolvimento do sentimento de pertencimento a um grupo, além do respeito e a valorização das diferenças culturais. Palmieri (2015), a partir de um estudo realizado com crianças de 4 a 6 anos de idade em uma escola de Londrina-PR sobre o papel dos jogos cooperativos na Educação Infantil, indicou que eles são um recurso lúdico eficaz para o estímulo à solidariedade, cooperação e progressiva autonomia, além de proporcionarem espaços para a negociação de conflitos e a internalização de valores, como a ajuda mútua, a colaboração e a empatia.
Jogos cooperativos propõem a união de todos os participantes em prol de um objetivo comum. Veja alguns exemplo:
APRENDER QA SER
Este pilar enfatiza o papel essencial da educação como via para a garantia dos direitos de liberdade de pensamento, discernimento, sentimento e imaginação necessários ao pleno desenvolvimento das potencialidades humanas (FRIEDMANN, 2011).
Alguns norteadores para essa prática podem incluir:
RESUMO
APRENDER A CONHECER
Aprender a conhecer é adquirir as competências para a compreensão e a construção de conhecimentos. Nessa aprendizagem deve imperar o exercício do pensamento, da atenção e da memória, incluindo o estímulo à habilidade de selecionar as informações que efetivamente possam ser contextualizadas com a realidade em que se vive, capazes de serem expressas através de linguagens diferentes. Quem aprende a conhecer aprende a aprender, e essa aprendizagem é absolutamente essencial para as relações interpessoais e para as capacidades profissionais futuras.
APRENDER A FAZER
Aprender a fazer enfatiza a questão da formação profissional e o preparo para o mundo do trabalho. A escola, desde a Educação Infantil, deve ressaltar a importância de se pôr em prática os conhecimentos significativos ao trabalho futuro.
Aprender a fazer não é preparar alguém para uma tarefa determinada, mas despertar e estimular a criatividade para que se descubra o valor construtivo do trabalho, sua importância como forma de comunicação entre o homem e a sociedade, seus meios como ferramentas de cooperação, e para que se transforme o progresso do conhecimento em novos empreendimentos e em novos empregos.
APRENDER A CONVIVER
Aprender a conviver significa aprender a viver juntos, a viver com os outros. Para que essa aprendizagem aconteça, é essencial que a escola seja um espaço estimulador de projetos solidários e cooperativos, identificados pela busca de objetivos comuns. Os precursores do autoconhecimento e da autoestima são os mesmos da solidariedade e da compreensão. Sendo assim, é essencial estimular a descoberta de si para que a criança possa descobrir o outro.
APRENDER A SER
Aprender a ser retoma a ideia de que todo ser humano deve ser preparado inteiramente para o desenvolvimento de suas potencialidades, incluindo:
Em todos os pilares há o destaque para a necessidade de preparar as crianças para o futuro, no sentido de instrumentalizá-las para lidar com os diferentes desafios que possam se fazer presentes na vida pessoal, profissional e comunitária de um contexto cultural e tecnológico permeado por constantes mudanças e transformações.
Doutora em Educação
Rua Almerinda de Castro, 142 - Campo Grande - Rio de Janeiro/RJ