2.1 Conviver

INTRODUÇÃO

A transmissão e absorção de conhecimentos como objetivos do processo de ensinoaprendizagem é um questionamento constante entre educadores que tem cedido lugar para o ensinar a pensar, a comunicar-se e pesquisar, a desenvolver o raciocínio lógico, a fazer sínteses e elaborações teóricas, a ser independente e autônomo ou, em outras palavras, a ser
socialmente competente.

A partir da Conferência Internacional sobre Educação, ocorrida em 1990 na cidade de Jomtien, na Tailândia, foi elaborada a Declaração Mundial sobre a Educação para Todos. Neste documento enfatiza-se que o educador, que anteriormente exercia o papel de agente transmissor de informações, passa a exercer o papel de selecionador dessas informações, auxiliando tanto no descobrimento e seleção quanto na maneira de transformá-las em saberes distintos.

Nesse ínterim, especialistas do mundo inteiro que compunham a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI prepararam um relatório para a UNESCO intitulado “Educação: um tesouro a Descobrir”. Coordenado por Jacques Delors, neste relatório são apresentados os “Quatro Pilares da Educação”, pautados em como a escola pode contribuir para o desenvolvimento de novas gerações, preparando-as para mudar e melhorar o mundo.

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Alinhada a esses pilares, que serão discutidos a seguir, a Base Nacional Comum Curricular - BNCC (BRASIL, 2018) propõe, desde 2018, nortear a prática escolar e educacional em todas as faixas de escolarização, destacando o protagonismo da criança e o seu potencial para aprender a partir da interação e do brincar.

Aprender a conhecer

OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO

APRENDER A CONHECER

Em meio a um contexto histórico e social de constantes incertezas e mudanças, é necessário aprender novamente, de um outro jeito, e lidar com o novo. E isso nem sempre é tarefa fácil: muitas vezes surge o ímpeto de desistir antes mesmo de tentar. Julgamos que não vale a pena gastar tempo aprendendo algo novo, algo que não sabemos ao certo se fará diferença no futuro. Mas vale! Aprender a aprender é uma habilidade importante para todas as pessoas: é a capacidade de descobrir quais movimentos são necessários para que as transformações desejadas aconteçam.

Nessa perspectiva, um dos maiores desafios das instituições de Educação Infantil é estimular o desenvolvimento de estratégias de aprendizagem capazes de estimular capacidades e habilidades que instrumentalizem a criança desde os primeiros meses de vida para aprender a conhecer (FRIEDMANN, 2011). Apesar da aparente complexidade desta tarefa, os profissionais da educação não precisam aprender a revolucionar o mundo, mas a saber aprender, o que envolve o exercício da atenção, da memória, do pensamento crítico e de uma postura de curiosidade diante dos desafios encontrados durante toda sua trajetória.

Antunes (2008) afirma que todas as crianças podem ter as diversas habilidades desenvolvidas. Para isso, é necessário que, a partir dos recursos disponíveis, sejam utilizados esquemas de aprendizagem eficientes e significativos, e que os agentes estimuladores (educadores, famílias e comunidade) estejam instrumentalizados para que as necessidades infantis individuais sejam observadas e acolhidas nos projetos de estimulação. Desse modo, o autor propõe uma “caixa de ferramentas do educador estimulador”, composta principalmente pelo que compreendemos como alguns dos alicerces do aprender a aprender:

  • Mente aberta: humildade para perceber-se em constante formação;
  • Sensibilidade e prazer em se relacionar com o outro e ser uma ponte entre o que a criança já sabe e os novos conhecimentos;
  • Curiosidade, entusiasmo e ousadia: não há limites para o aprender, sempre é momento de estudar;
  • Senso crítico: aceitar suas limitações, rever procedimentos e reinventar-se com base nas novas descobertas;
  • Organização: registrar em diários de campo as descobertas do cotidiano (o melhor cenário de pesquisa);
  • Serenidade perante as limitações materiais e contextuais.

O estudo realizado por Rodrigues e Boer (2019) discutiu como a internalização dessas ferramentas pode propiciar o cumprimento dos objetivos da BNCC na Educação Infantil. Esses autores realizaram uma pesquisa-ação com uma turma de nível Pré-A (faixa etária de 4 anos) e constataram o papel da escuta atenta como um canal aberto para a promoção do aprender.

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Ao direcionar a atenção para o que as crianças sinalizavam querer conhecer no cotidiano escolar, intervindo com intencionalidade educativa a cada oportunidade de interação, o educador pode promover ações interdisciplinares que levem as crianças a explorar os diferentes campos de experiência, tornando o conhecimento algo prazeroso e significativo a longo prazo.

Nesse sentido, colocar a criança no centro do seu processo de aprendizagem, saber onde se objetiva chegar em cada intervenção e lançar mão de desafios condizentes com as capacidades infantis em cada fase de seu desenvolvimento, respeitando e acompanhando o seu processo individual, são práticas fundamentais para a promoção do desenvolvimento infantil, alinhadas às ferramentas apresentadas.

Para aguçar o olhar do educador na organização de práticas que favoreçam o pleno desenvolvimento biopsicossocial das crianças, Rodrigues e Boer (2019) apontam a importância da formação continuada na área da Educação Infantil e da atitude de constante busca por novas aprendizagens por parte do educador.

APRENDER A FAZER

Conhecer e fazer são práticas indissociáveis. Por isso, esse segundo pilar é consequência do primeiro (FRIEDMANN, 2011). Desde o início da vida, a busca por atribuir significado às experiências faz parte do desenvolvimento humano. Sendo assim, a experimentação prática dos conhecimentos por meio do corpo possibilita o processo de atribuições de significados singulares e consistentes, formando a base para as aquisições e desafios seguintes. Conforme Delors (2012), a aplicação prática do conhecimento para a resolução de problemas envolve a criatividade, a comunicação e a cooperação, tornando a pessoa apta a enfrentar numerosas situações desafiadoras nos diferentes campos de experiência.

Nesse sentido, aprender a fazer envolve a garantia de alguns dos direitos básicos previstos na BNCC, como o direito de participar e de explorar, ou seja, é fundamental envolver a criança na construção do planejamento das rotinas, das brincadeiras e das atividades, assim como possibilitar a ela a exploração autônoma e criativa dos materiais, espaços e vivências proporcionados pelo contexto educacional.

Portanto, a interação e o lúdico são os eixos centrais dessas aprendizagens, os quais devem estar integrados à rotina infantil. A fim de reforçar a importância da interação com o adulto, na discussão sobre este segundo pilar da educação, apresentamos dois paralelos, um contemplando a criança, outro o educador.

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Autonomia é a capacidade da criança de expressar desejos e ter mais independência em relação aos adultos.

Complementar a isso, destacamos a relevância de se pensar em intervenções e propostas de atividades que estejam de acordo com o repertório de habilidades infantis conforme cada faixa etária. O desafio deve ser adequado para as habilidades da criança naquele momento, pois nada deve ser tão fácil que não a incentive a pensar, nem tão difícil que ela desista de tentar.

Saber dosar, saber a hora de parar, saber dizer não... Parece simples, mas não é. Em geral fazemos automaticamente aquilo a que já estamos acostumados. Nesse sentido, mudar algumas práticas pode ser desconfortável no começo, mas à medida que o tempo transcorre essas práticas vão se incorporando ao cotidiano.

APRENDER A CONVIVER

Para a BNCC este pilar compreende: “conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas”.

 

Sabe-se que a família é a primeira instituição na qual o indivíduo é inserido logo que nasce, estabelecendo suas primeiras relações. Em função disso, as vivências no âmbito familiar costumam ser significativas ao longo da vida. Essa família, por sua vez, faz parte de uma rede complexa de relações com os fatores sociais, ambientais, culturais e históricos do tempo/espaço em que vive (MINUCHIN, 1990).

Nesse sentido, aquilo que se pensa, as escolhas que se faz e a forma como se sente também são reflexo dessa grande rede de interconexões. Quanto maior for a consciência a respeito disso, melhor será a compreensão do outro e a percepção da interdependência entre o eu e o outro, a escola, a cidade, o país e o mundo em que se vive. Logo, a partir da compreensão da interdependência humana potencializa-se a habilidade de realizar projetos comuns e gerenciar conflitos, respeitando-se a pluralidade (FRIEDMANN, 2011; DELORS, 2012).

Assim como é tarefa da escola a compreensão sobre a interdependência das relações que se estabelecem, com o objetivo de proporcionar as condições necessárias ao aprender a viver juntos, é tarefa dela abrir espaço para o aprendizado sobre a diversidade da condição humana. Essa aprendizagem envolve (ANTUNES, 2008; BRASIL, 2018; FRIEDMANN, 2011):

  • Promover a autodescoberta da criança para a posterior descoberta do outro, para sentir-se na pele dele e compreender suas reações. Assim, ajudar a criança a reconhecer, validar e aprender a lidar com as próprias emoções é o caminho para auxiliá-la no reconhecimento das semelhanças e diferenças com o outro, respeitando as singularidades;
  • Incentivar o envolvimento da criança em objetivos comuns com seus pares, trabalhando em conjunto em projetos que fortaleçam a construção da identidade e da imagem social e comunitária da criança, tomando por base sua subjetividade;
  • Utilizar os recursos lúdicos como jogos socializadores e brincadeiras que estimulem a cooperação, assim como organização conjunta dos espaços e dos materiais;
  • Viabilizar nas situações de interação com os pares e brincadeiras o envolvimento em experiências de cooperação e responsabilidade social.

A BNCC enfatiza que experiências como essas podem viabilizar o desenvolvimento do sentimento de pertencimento a um grupo, além do respeito e a valorização das diferenças culturais. Palmieri (2015), a partir de um estudo realizado com crianças de 4 a 6 anos de idade em uma escola de Londrina-PR sobre o papel dos jogos cooperativos na Educação Infantil, indicou que eles são um recurso lúdico eficaz para o estímulo à solidariedade, cooperação e progressiva autonomia, além de proporcionarem espaços para a negociação de conflitos e a internalização de valores, como a ajuda mútua, a colaboração e a empatia.

Jogos cooperativos propõem a união de todos os participantes em prol de um objetivo comum. Veja alguns exemplo:

  • Caça ao tesouro: as crianças buscam um objeto específico. Serão espalhadas pistas que, em equipe, as crianças tentarão encontrar. Com a pista em mãos elas acabam por desvendar o esconderijo do tesouro.
  • Transporte de objetos: em duplas as crianças irão transportar objetos de um ponto a outro. O objetivo é cooperar com sua dupla através de movimentos físicos, não deixando o objeto cair.
  • Levanta balão: utiliza-se alguns balões cheios de ar. O objetivo é não os deixar cair no chão e, assim, promover a colaboração e a interação entre as crianças.
  • Telefone sem fio: nessa atividade, as crianças sentam-se em círculo. A primeira criança deverá dizer uma palavra no ouvido da que está ao seu lado e assim sucessivamente até a última, que falará em voz alta o que ouviu.
  • Contação de história coletiva: em círculo, as crianças irão contar uma história escolhida em conjunto. Um participante irá iniciar e, na sequência, o outro deverá continuar o enredo da mesma história.
  • Desenho coletivo: o grupo deve fazer um desenho coletivo, cada um desenha uma parte, interagindo entre si até dar forma a imagem. O objetivo é estimular a coletividade de maneira lúdica.

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APRENDER QA SER

Este pilar enfatiza o papel essencial da educação como via para a garantia dos direitos de liberdade de pensamento, discernimento, sentimento e imaginação necessários ao pleno desenvolvimento das potencialidades humanas (FRIEDMANN, 2011).

Alguns norteadores para essa prática podem incluir:

  • Lembrar que cada pessoa tem sua própria história, seu temperamento e seu modo de fazer as coisas, portanto o olhar atento às singularidades fornece informações essenciais para possibilitar à criança o autoconhecimento;
  • Proporcionar a expressão verbal e não-verbal infantil, por meio do lúdico, do corpo, da exploração dos espaços, da arte, da música e demais recursos disponíveis como meio para a comunicação com o outro de modo espontâneo, autêntico e efetivo;
  • Ter em mente que, principalmente nos três primeiros anos de vida, a linguagem não-verbal é um dos canais mais importantes para a expressão e comunicação do bebê e da criança sobre seus medos, angústias, desejos, emoções, crenças, temperamento, valores, entre outros elementos fundamentais do seu universo.

RESUMO

APRENDER A CONHECER

Aprender a conhecer é adquirir as competências para a compreensão e a construção de conhecimentos. Nessa aprendizagem deve imperar o exercício do pensamento, da atenção e da memória, incluindo o estímulo à habilidade de selecionar as informações que efetivamente possam ser contextualizadas com a realidade em que se vive, capazes de serem expressas através de linguagens diferentes. Quem aprende a conhecer aprende a aprender, e essa aprendizagem é absolutamente essencial para as relações interpessoais e para as capacidades profissionais futuras.

APRENDER A FAZER

Aprender a fazer enfatiza a questão da formação profissional e o preparo para o mundo do trabalho. A escola, desde a Educação Infantil, deve ressaltar a importância de se pôr em prática os conhecimentos significativos ao trabalho futuro.

Aprender a fazer não é preparar alguém para uma tarefa determinada, mas despertar e estimular a criatividade para que se descubra o valor construtivo do trabalho, sua importância como forma de comunicação entre o homem e a sociedade, seus meios como ferramentas de cooperação, e para que se transforme o progresso do conhecimento em novos empreendimentos e em novos empregos.

APRENDER A CONVIVER

Aprender a conviver significa aprender a viver juntos, a viver com os outros. Para que essa aprendizagem aconteça, é essencial que a escola seja um espaço estimulador de projetos solidários e cooperativos, identificados pela busca de objetivos comuns. Os precursores do autoconhecimento e da autoestima são os mesmos da solidariedade e da compreensão. Sendo assim, é essencial estimular a descoberta de si para que a criança possa descobrir o outro.

APRENDER A SER

Aprender a ser retoma a ideia de que todo ser humano deve ser preparado inteiramente para o desenvolvimento de suas potencialidades, incluindo:

  • Corpo e mente;
  • Inteligência e sensibilidade;
  • Sentido estético e responsabilidade pessoal;
  • Ética e espiritualidade.

Em todos os pilares há o destaque para a necessidade de preparar as crianças para o futuro, no sentido de instrumentalizá-las para lidar com os diferentes desafios que possam se fazer presentes na vida pessoal, profissional e comunitária de um contexto cultural e tecnológico permeado por constantes mudanças e transformações.

Informações dos professores

Juliana Behrends

Juliana Behrends

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